A pressa, a confiança cega nos dados pré-preenchidos ou o simples desconhecimento de algumas regras fiscais pode custar dinheiro — e, em alguns casos, originar problemas com as Finanças. A boa notícia é que evitar esses erros não exige ser especialista. Basta saber o que verificar.
Aqui ficam os 7 pontos que deves confirmar antes de carregar em “submeter”.
1. Os dados pré-preenchidos não são garantia de correção
O portal das Finanças preenche automaticamente parte da tua declaração com os dados que tem disponíveis: salários, retenções na fonte, pensões, rendimentos de capitais. Parece prático. E é — mas não é infalível.
Os dados vêm das entidades que comunicaram informação à Autoridade Tributária. Se uma entidade entregou um valor errado, ou se houve alguma falha de comunicação, esse erro vai aparecer na tua declaração como se fosse correto. E tu és o responsável pelo que submetes.
Antes de avançares, confirma os valores dos teus recibos de vencimento, pensões ou outros rendimentos. Compara com o que está no portal. Qualquer discrepância deve ser corrigida antes de submeter.
2. Validar as faturas no e-Fatura
As deduções em IRS dependem, em grande parte, das despesas que tens registadas no e-Fatura. Saúde, educação, habitação, restauração, alojamento — são categorias com benefícios fiscais que só funcionam se as faturas estiverem validadas com o teu NIF.
O prazo para validar faturas referentes a 2025 terminou a 2 de março de 2026. Se já passou, não há muito a fazer para o ano passado — mas há uma lição a guardar para 2026: pede fatura das tuas despesas com NIF, ao longo do ano.
Para quem ainda tem faturas pendentes de validação de anos anteriores ou questões por resolver, convém aceder ao portal do e-Fatura e verificar o estado de cada despesa. Algumas podem estar em disputa ou mal categorizadas, e isso afeta o montante das deduções.
3. Confirmar a composição do agregado familiar
Casamento, divórcio, nascimento de um filho, alteração de guarda partilhada, falecimento de um dependente — qualquer mudança na composição do agregado familiar tem impacto direto no cálculo do IRS.
O portal das Finanças utiliza a informação que tem registada. Se não comunicaste as alterações dentro dos prazos (o prazo geral é 2 de março), pode acontecer que o teu agregado esteja desatualizado na declaração.
Verifica se os dependentes estão corretos, se a situação conjugal está corretamente refletida e se existe alguma situação específica — como filhos em guarda alternada — que mereça atenção especial. Um erro aqui pode alterar significativamente o resultado da tua declaração.
4. IRS Automático: aceitar sem ler é um erro
O IRS Automático surgiu para simplificar a vida dos contribuintes com rendimentos mais simples — tipicamente trabalhadores por conta de outrem, com apenas uma fonte de rendimento e sem situações fiscais complexas.
Se és elegível, o portal apresenta uma proposta de liquidação já calculada. Podes aceitar com um clique. Mas esse clique merece atenção.
Aceitar o IRS Automático sem verificar significa aceitar também eventuais erros nos dados de base — rendimentos, retenções, deduções consideradas. O sistema pode não estar a incluir todas as deduções a que tens direito, nomeadamente em saúde, educação ou habitação. Pode não refletir uma alteração no agregado familiar. Pode não contemplar o IRS Jovem, caso sejas elegível.
A regra é simples: lê o que estás a submeter antes de aceitar. Simula o cenário de entrega manual e compara. Só assim consegues perceber se o automático é realmente a melhor opção para a tua situação.
5. Conhecer as deduções a que temos direito
Uma das maiores perdas que os contribuintes têm no IRS é não aproveitar as deduções disponíveis. Não por falta de direito — mas por falta de informação.
Em 2026, e para rendimentos de 2025, existem deduções em várias categorias: despesas gerais familiares (até 35% das despesas, com limite de 250 euros por contribuinte), saúde (15% das despesas, com limite de 1.000 euros), educação (30% das despesas, com limite de 800 euros), habitação — seja em rendas ou em juros de crédito habitação — e até despesas com lares de idosos.
Há ainda deduções menos conhecidas, como as relacionadas com trabalhadores domésticos (até 200 euros) ou com atividades culturais. Vale a pena consultar a lista completa e verificar, categoria a categoria, o que está a ser considerado na tua declaração.
O objetivo não é maximizar deduções a qualquer custo — é não deixar para trás aquilo a que tens direito.
6. IRS Jovem — não deixes passar
Se tens até 35 anos e estás a trabalhar, o IRS Jovem pode representar uma poupança fiscal significativa. Este regime, reforçado nos últimos anos, permite uma isenção parcial ou total de IRS sobre os rendimentos do trabalho durante um período de até 10 anos.
A isenção começa nos 100% no primeiro e segundo anos, vai reduzindo progressivamente e termina nos 25% entre o nono e o décimo ano de aplicação.
O ponto crítico: este benefício não é automático. Tens de o ativar manualmente na declaração de IRS. Muitos jovens elegíveis perdem este benefício simplesmente por desconhecimento ou por aceitarem o IRS Automático sem verificar se está incluído.
Se és elegível e ainda não o ativaste, esta é a altura para o fazer. Consulta as condições no portal das Finanças e confirma se estás dentro dos critérios.
7. Simular antes de submeter — e escolher bem o momento
A simulação é uma ferramenta que o portal das Finanças disponibiliza e que poucos utilizam como deveriam. Antes de submeter a declaração, podes simular diferentes cenários: tributação conjunta vs. separada para casais, inclusão ou exclusão de determinadas despesas, impacto de diferentes situações fiscais.
Esta simulação não tem consequências — é apenas informativa. Mas pode fazer a diferença entre um reembolso mais elevado ou um pagamento desnecessário.
Quanto ao momento de entrega: evita os primeiros dias de abril. Nos primeiros dias do período de entrega, o portal costuma registar sobrecargas e os dados pré-preenchidos podem ainda não estar totalmente consolidados. Submeter a partir de meados de abril é, regra geral, mais seguro e mais eficiente.
Da mesma forma, evita os últimos dias de junho. Deixar para a última hora aumenta o risco de erros por pressão e pode coincidir com problemas técnicos no portal.
Declarar com atenção é declarar melhor
O IRS não tem de ser uma fonte de ansiedade. Com alguma organização e os pontos certos em mente, é possível entregar a declaração com confiança — e sem deixar dinheiro na mesa.
Se a tua situação fiscal for mais complexa — rendimentos de categoria B, rendimentos no estrangeiro, investimentos, heranças — considera recorrer a apoio profissional. O custo de um erro pode ser superior ao custo de uma consulta.
O prazo vai até 30 de junho. Há tempo. Usa-o bem.
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Joana Gomes, Contabilista Certificada


